domingo, 31 de agosto de 2008

RESENHA DE LIVRO



SAFRA, G. Hermenêutica na situação clínica: o desvelar da singularidade pelo idioma pessoal. São Paulo. Ed. Sobornost, 2006.

Safra inicia seu livro refletindo sobre a necessidade de uma revisão da prática clínica devido à atenção que deve ser dada ao ethos e a própria condição humana, evitando uma abordagem do analisando que o leve a um adoecimento ainda maior.
Durante o texto também fica claro que enquanto a representação e o discurso estão vinculados ao pensamento lógico, os símbolos apresentativos estão dirigidos à sensibilidade e são importantes pela sua composição orgânica; e é por meio do símbolo representacional que o analista compreende o analisando e pelo registro icônico, pode-se vislumbrar a maneira como as questões ontológicas da existência aparecem na vida do analisando.
Ele também ressalta que os sofrimentos atuais não são os mesmos de anos atrás, pois o homem mudou e atualmente é possível descrever três modos de ser do homem contemporâneo: bidimensional, tridimensional e abismal.
O que se mantém no caráter humano independentemente de sua época é sua finitude que o coloca entre dois mistérios: a Arché e o Telos e em qualquer gesto humano essa condição reaparece, sendo o homem aquele que pode iniciar e também por fim.
Outra característica humana é ser criativo, dar sentido; e criar um sentido significa abrir a possibilidade de um destino. Por não estar biologicamente, nem socialmente determinado o homem pode desvelar sentidos surpreendentes a partir do lugar em que se encontra. Quando essa possibilidade de destinar-se é perdida ocorre o adoecimento, pois é de suma importância que cada indivíduo crie um sentido para o seu caminhar, tenha um horizonte e um futuro com sentido pessoal, para que alcance a esperança. Enquanto há esperança, há sonho de um futuro, há uma busca de realização no horizonte existencial sempre em aberto que só se fecha com a morte, pois é só neste momento que a profundidade da vida de alguém se revela.
E durante esse caminhar hão de se encontrar com o sofrimento, aquele que informa a pessoa sobre si mesma e sobre as questões fundamentais da existência. Dentre essas questões está a importância de que cada um saiba qual o seu lugar em sua história, pois só assim é possível que ocorra o diálogo e o analista dentre tantas funções também tem está de ser o Outro que reconhece o lugar do analisando em sua história.
Este olhar do Outro é importante porque só ele é capaz de oferecer a integridade e totalidade do que é olhado, pois aquele que olha a si mesmo tem um olhar experiêncial.
O psicanalista também ressalta que o ser humano tem como inerente a si, conceber um ente eterno, ou seja, criar uma concepção do divino, sem passado e nem futuro, que irá constituir o sonho do fim da vida e o modo como se concebe o sentido último da existência, porém essa concepção que a pessoa traz do divino em seu mundo psíquico não é a sua fé doutrinaria e sim o que a fará viver não só para o agora, mas para um sentido que a transcende e neste momento a espiritualidade se constitui e a morte é acolhida, pois o gesto passa a ter sentido e o tem porque está posto para além da existência pessoal. Já a religião, que é ôntica, nasce da espiritualidade e se mostra ambígua, visto que pode favorecer ou se tornar um obstáculo para o desenvolvimento da espiritualidade, esse desenvolvimento se faz importante à medida que a espiritualidade dá à pessoa a possibilidade de reflexão.
Na clínica, Safra deixa clara a necessidade de compreender o encontro de dois movimentos, o que vem do passado (quando o analisando se apropria da sua questão originária) e o que se direciona para o futuro (quando o analisando se apropria dos princípios que regem o seu sonho utópico, acessando o sentido último de sua existência), para então entendermos um determinado momento da vida do analisando. É um momento porque tudo é fluido e assim sendo o modo de ser de uma pessoa é sempre um movimento cujo sentido excede a sua intenção e cada evento inaugura novas possibilidades e novos posicionamentos frente ao originário e frente ao sonho do futuro.
Outro aspecto importante da clínica ressaltado por Safra é que o mundo criado pela comunicação do analisando afeta o analista por meio de registros afetivos, empáticos, estéticos e discursivos; e para que a singularidade do analisando seja acolhida é necessário que se compreenda a intencionalidade da comunicação, a comunicação significativa, a coerência do sentido, o fenômeno da conclusibilidade e a composição da sessão.
Sendo assim é preciso estar atento ao que é dito pelo analisando e à composição que ele utilizou para veicular o que disse e quando o trabalho da sessão aconteceu, ela termina com a morte simbólica do analisando e do analista; e para compreender uma sessão pode-se utilizar o conteúdo temático da sessão, as imagens da sessão (que pode ser tanto em dimensão metafórica, quanto icônica), o estilo estético, a composição da fala ou o reconhecimento do fenômeno transferencial.
Em resumo, ao mesmo tempo em que é necessário que o analista esteja em uma posição reflexiva, também é preciso que ele compreenda o analisando utilizando-se de sua sensibilidade para tal, de modo que este perceba em seu corpo sinais de compreensão do que foi comunicado.
O psicanalista encerra esse livro lembrando a importância de se preservar a noção de alma que é fonte de toda ação humana motora ou psíquica e a importância de se estar com o analisando e se identificar com a morada em que o mesmo se encontra.
Concluindo, esse livro traz aos seus leitores uma visão atualizada do sofrimento psíquico encontrado na clinica psicológica da contemporaneidade e apesar de não ignorar as semelhanças do homem de hoje com o do passado, alerta seus leitores para os novos sofrimentos e formas de sofrer que são constantemente influenciados pelo contexto, pois o homem é um ser histórico, e daí vem a necessidade de uma constante atualização de conhecimentos para aqueles que pretendem de fato compreender e auxiliar aqueles que sofrem.
(Talia Armani Delalibera)

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