domingo, 31 de agosto de 2008

FAVELAS: UM FUTURO DA PSICOLOGIA



Neste momento, estamos diante de uma ampliação do olhar psicológico. Podemos constatar nas atitudes que vêm sendo tomadas na Psicologia de modo geral. O CFP reforça a questão ao propor o Banco Social, levando o profissional ao contato com a realidade fora do consultório.
Ao mesmo tempo, proíbe a aplicação dos testes que não condizem com a realidade brasileira, propondo sua revisão a partir do nosso contexto e não a aplicação a partir da mera cópia de um resultado "importado".
Esta adequação do trabalho do psicólogo deve referir-se a todos os campos de atuação no qual ele tem se inserido: escolas, hospitais, comunidades, associações, instituições em geral e qualquer outro ambiente que traz em si uma especificidade que exige ao menos uma reflexão sobre como exercer a atividade.
Somada a estas colocações, uma notícia que circulou na mídia recentemente sobre a projeção feita pela ONU dizendo que, em 2030, um quarto da população mundial estará vivendo em favelas. Sendo, a América Latina hoje a terceira colocada no ranking de favelas de todo o mundo (precedida pela África em segundo lugar e Ásia em primeiro), deve chamar a atenção de todas as áreas da Psicologia brasileira, já que é no nosso país onde se concentra o maior número de favelas latinas.
Aproveitemos este momento em que estamos tomando um rumo de visão mais abrangente aos aspectos sociais e encaremos este âmbito como um sério ponto de reflexão: como será o Homem a ser estudado nesta nova e futura realidade?
A minha experiência em favela mostra a dificuldade em atuar com teorias que não partiram desta realidade, necessitando em caráter de urgência a tentativa de encurtar a distância abismal entre teoria e prática.
Grandes desafios mostram-se, sendo alguns superados e outros (ainda?) não.
Pude me ver frente a um terreno completamente desconhecido apesar de tantos estudos realizados na tentativa de conhecermos o ser humano.
Várias questões surgiram: como reagir diante de características tão destoantes do que estamos habituados a presenciar no dia-a-dia?
Como compreender as crianças tão espertas que, antes da adolescência, vão abandonando as escolas e se transformando em traficantes?
Como orientar tantas adolescentes que têm relações sexuais com vários parceiros e nunca mencionam o uso de preservativo?
O que fazer com uma mulher que, ao tentar o suicídio após o estupro de seu filho de oito anos, não é assistida por nenhum parente que poderia se comprometer em passar a noite juntamente a ela para tentar evitar uma nova tentativa?
Como proceder diante dos silenciosos assassinatos e suas conseqüências para toda a família da vítima, sendo que todos sabem quem é e convivem com o autor do crime?
Perguntas não faltam...
Menos ainda faltam situações de extrema miséria e crueza que tanto nos pesam e revoltam, colocando-nos em um sentimento de extrema inferioridade diante de tantos problemas dos mais variados estilos.
No entanto, também surgem situações contrárias a esta miséria que fazem um contraponto de tamanha estranheza e dissonância mas que não deixam de fazer parte da mesma harmonia. Está composta a Bossa-Nova do nosso futuro...
Vejo crianças brincando na rua, expressando uma liberdade invejável. Enquanto as meninas pulam corda, um senhor de idade já bastante avançada senta-se na calçada e conta em voz alta o número de voltas puladas pelas garotas numa relação que jamais presenciei em outro contexto.
Um garoto me conta da sua vida com uma pureza inigualável, sem a mínima influência da mídia ou dos modismos consumistas voltados para a sua idade.
Estas e outras situações me forçam a ver que uma vida simples e gratificante é possível apesar de todas as dificuldades envolvidas neste tipo de ambiente.
A notícia já citada incita a atenção e a pesquisa para o ambiente comunitário e tão peculiar da favela, pois, no futuro, inevitavelmente teremos contato com alguém que vive neste contexto, podendo vir a ser, inclusive, nossos parentes mais próximos.
A exploração deste campo é mais que uma curiosidade filosófica ou científica: é necessária!
Entre as ferramentas de pesquisa, deverão estar, em primeiro lugar, a sensibilidade do profissional, para que possa "captar" as peculiaridades e necessidades do seu ambiente de trabalho (que é um aspecto muito forte da fenomenologia).
Juntamente com a sensibilidade, um destaque para a flexibilidade do profissional, já que este deve estar aberto a pensar e repensar tanto as suas teorizações como a sua prática, que muitas vezes não poderão contar com referências bibliográficas nas quais se apoiarem diretamente.
O terceiro e último item que cito (não pretendo, porém, que sejam únicos e definitivos) é a reflexão ética que sem a menor sombra de dúvida se mostrará necessária. Diante de novas situações, surgirão novas questões que, mesmo com a já iniciada discussão sobre a revisão do Código de Ética Profissional dos psicólogos, podem não estar mencionadas em seu texto.
É preciso criar e recriar uma Psicologia genuinamente brasileira a todo momento. Uma Psicologia calcada em muita lucidez diante dos limites dos livros em relação à realidade que temos nas calçadas e ruas do nosso país.
André R. R. Torres
fonte:
http://www.psicoexistencial.com.br/web/detalhes.asp?cod_menu=108&cod_tbl_texto=1574

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