
(Deise de Almeida Gomes)
Descobrimos o mundo através do outro. Pode-se pensar na importância de outras pessoas para a interação social, e através destas relações sentidos vão sendo produzidos acerca do ambiente que nos rodeia. Pelo contato, gestos, emoções e comunicação se desenvolvem e o ato de atribuir significado à ação, aos sentimentos, aos gestos surge da interação. Com isto, nos constituímos continuamente, sendo as relações, o contato, o processo de socialização de considerável repercussão sobre a construção do eu ou de si mesmo.
Não pretendo, aqui, questionar a relevância das relações comentadas acima sobre a subjetividade, mas ampliar a discussão sobre a constituição de si mesmo incluindo outras vozes neste processo, reconhecendo e admitindo o surgimento de novas formas de subjetividade e sua repercussão nas relações com o outro e com o mundo.
Gonçalves (2003) levanta esta questão. Segundo o autor, um aspecto considerável na cultura contemporânea se refere ao problema da subjetividade. Assistimos a formação de um novo sujeito e novas subjetividades parcialmente em virtude das novas tecnologias de comunicação. O autor chama esse processo de constituição de si mesmo como sujeitos de práticas de subjetivação, na medida em que ele entende que o sujeito organiza os vários elementos heterogêneos disponibilizados pelo social para constituir uma forma de si mesmo.
Turkle (1997), Sodré (1996) e Canclini (1995) discutem esta questão. Os autores relacionam as novas formas de sujeito às novas tecnologias de comunicação. Cria-se um contexto na contemporaneidade que coloca o sujeito em uma nova relação com sua própria identidade. Sujeito este que é passível de ser comparado a um mutante, uma vez que não é linear nem rígido em sua formação, mas compreende múltiplos eus. Por fim, chamam a atenção para a historicidade do sujeito, não sendo possível compreendê-lo livre de seu meio e do momento em que vive.
A fragmentação e a virtualização das experiências são aspectos de um mundo em que a dimensão espaço-tempo é relativa e mutável, com relações afetadas tanto no domínio eu - outro quanto na dimensão do corpo. Essas transformações agora se integram nos aspectos formadores dos indivíduos; a esfera cultural e tecnológica.
A subjetividade compreendida como as particularidades do sujeito tecidas em sua relação com o mundo, está permeada pelo contexto bio-sócio-político-econômico-cultural-tecnológico. Na forma de um fluxo em contínuo devir, a subjetividade desenha diferentes e criativas paisagens que já não correspondem a imagem do sujeito moderno, portador de uma essência naturalmente estática (SUNDFELD, 2000, p.254).
Diante disso é preciso refletir sobre a repercussão desses novos elementos que a cultura contemporânea fornece aos sujeitos. Pode-se perceber a impossibilidade de compreender o homem e suas mudanças desde uma perspectiva linear, mas dentro da complexidade que afirma o caráter dinâmico, relacional, dialógico que funda o ser vivo em sua dimensão ontológica. Para Sundfeld (2000) adotar o pensamento complexo no exercício da prática psicológica não reflete apenas a redimensão das ferramentas clínicas, mas traduz sobretudo um reposicionamento filosófico e existencial. São novas imagens e novos jeitos de se relacionar, o contato com o outro tão fundamental para a constituição de si mesmo é agora dimensionado para uma linguagem própria desta relação com um outro que em alguns contextos possui ausência de corporeidade.
Novas formas de subjetividade, novas formas de interação e de compreensão das questões humanas. Com o advento da tecnologia surge a cultura da globalização e há que se refletir sobre as conseqüências destas transformações nas relações humanas e na forma de se viver.
Conforme Sundfeld (2000), o mundo está vivenciando novos processos, como a globalização, o avanço tecnológico, a comunicação à distância e a virtualização das relações. Com estas constantes novidades e transformações é exigida das pessoas uma contínua adaptação e assimilação das informações. As experiências parecem ser transitórias e as sensações fugazes, não sendo possível tempo e espaço para a significação do vivido. Com tal ritmo, as pessoas tendem a simplesmente acolher as demandas que surgem, sem espaço para reflexão e produção de sentido.
Quais valores mudaram? O que está por trás de nossas relações com os outros e consigo mesmo? Para onde caminhamos? De que forma, com quem e com qual sentido? Muitos são os questionamentos que podemos fazer a respeito de nossa existência, de nossas relações e de nossas contínuas transformações. Perguntas geram inquietudes, conhecimento, ponto de partida para reflexões e não há outra saída a não ser pensar.
O que parece banal, o que parece inerente às nossas ações, o pensar, é algo que também tem sido questionado e torna-se importante tecer considerações a respeito. Pensamos realmente? Nossas ações são permeadas por reflexão? E o sentido da ação? E o sentido dela para nós mesmos? Ou pensar é algo complicado e que exige tempo? Tempo e pensar são termos que parecem ser pouco relacionáveis entre si. Refletir demanda pausa, mas pausa é incompatível com o tempo, ou a constante falta de tempo, imperativo em nossa vida acelerada.
Será que o que ganhamos em tecnologia, em facilidade de acesso a coisas diversas, a disponibilidade inumerável de informações, a possibilidade ampliada de relações interpessoais, perdemos também em outros aspectos? Este é um questionamento a se pensar. Reflexões que não têm a pretensão de se impor como verdadeiras, mas que se situam em uma das possibilidades possíveis dentro da multiplicidade de interpretação acerca do tema a que me proponho.
Tendo feito esta ressalva, busco relativizar os ganhos advindos da cultura contemporânea. Ganhos e perdas se situam em um continuum cuja atribuição de sentido depende do olhar daquele que observa. Não pretendo questionar a importância e os benefícios da cultura que vivenciamos, mas refletir criticamente as transformações na relação eu-outro-mundo.
Possuir tecnologias diversas, virtualizar relações, entrar no movimento acelerado de vida, consumir, saber, ter; praticamente não podem soar mais como novidades e progressivamente o possuir torna-se regra e não exceção. Torna-se difícil assimilar modificações, pois isso exige tempo e a adaptação deve ser rápida. Agimos muitas vezes como se estivéssemos no “piloto automático” e ir contra esse automatismo que internalizamos gera estranhamento, torna-se o diferente. Será que é por isso que constantemente nos excluímos de nós mesmos para nos incluirmos socialmente?
Busco a discussão de novas formas de subjetividade e isso nos remete a constituição do eu, mas questiono qual é o tamanho e o preço do espaço reservado para a expressão de algo subjetivo em uma sociedade que não raro desindividualiza, despersonaliza o diferente em favor da padronização.
Necessidades são socialmente criadas e passa-se a acreditar que realmente são necessárias, seja para a socialização com outros, seja pela própria felicidade e conquista. A título de ilustração, trago os supermercados 24 horas, a contínua busca por eletrônicos do último modelo, a superprodução e publicação acadêmica que não geram conhecimento, mas pontos, títulos, status, as marcas como fazendo parte das descrições das pessoas. É a valorização de um possuir e de um saber em detrimento de outros valores humanos e saberes.
Se o saber do outro é sempre maior do que o meu, eu preciso dele para me informar sobre minha própria vida. Aqui ganha lugar as orientações tecnicistas. Busca-se receitas e modelos, é mais fácil de se seguir e executar. Na ausência destes, há uma sensação de estar perdido. Quero ser ou ter o que é idealizado. E certamente nossa sociedade cria os padrões ideais em cada contexto e os que não se enquadram são inferiores e excluídos.
Conforme Cortella (2006) esse modo de se viver e as crenças que surgem a partir disso acaba por considerar toda essa transformação do mundo e de nós mesmos como corriqueira e normal, o que minimiza reflexões e fecha outras possibilidades. Esperar pelos acontecimentos, viver cada coisa no seu tempo, ter curiosidade ativa que leva a um processo de descobrir, é incompatível com uma sociedade que vive o futuro e prega o parâmetro velocidade. O referido autor questiona “será tão difícil pensar enquanto se continua fazendo outras coisas (...) Ora, pensar é uma atividade contínua, e não um evento episódico!”
Possivelmente é difícil mudar o igual, o que vigora, sendo mais promissor encontrar formas diferentes de se viver o igual e assim alterar a relação com o mesmo. As reflexões que propus não pretendem transformar o que muitas vezes não se pode mudar, mas representam um convite a outras possibilidades mais ricas dentro do que confere sentido a cada um. Foi um parar para pensar. Tarefa para toda a vida.

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